"...e no meio dessa tempestade, um par de dúvidas siamesas me ocorre: É possível amar um descarado, ou criar neologismos explorando palavras vindas de outras trajetórias? No pensamento de um insônido tudo é provável e pouca coisa impossível."
Clichê demais é perceber tarde que todo fim é precedido por um começo; toda ordem por um caos; todo vento por um movimento. E nesse desastroso jogo só se perde o que se ganha, se tamanha é a irregularidade entre os patamares do (mal)dito sentimento.
Não enfeitamos nossa casa imaginária com meras palavras bonitas ou utopias em sequência. Vesti, no entanto, a pequena roupa do sonhador, esperando que ela ainda coubesse no corpo exagerado de minha consciência limpa.
Por puro medo ou desobediência... Apenas tentei acreditar que o impossível era possível, somando um e um para encontrar número ímpar.
Nutrindo esperança, desejo ver ainda o final da reta. E quando as linhas se cruzarem, será permitido olhar discretamente para trás. Mas não haverá lamentações por ausência de tempo ou oportunidade para marcar a caixinha correta.
*Abraço você forte*
Então lhe permito reunir o número máximo de palavras para que enfim possa entender o que isto significa. Disseram-me, certas vezes, se tratar de uma troca; Uma troca de conforto, de lealdade, de confiança, sobretudo de verdades. Permita-me, porém, pedir-lhe que reserve mais um tanto de palavras para explicar por que se passou tanto tempo sem que eu pudesse encontrar o mencionado. Talvez estejamos tão embebidos em nossos próprios interesses, que mal temos tempo de observar que existe uma troca.
Pra ser sincero, escolhi viver sozinho. Planejei buscar em mim o que sonhava encontrar no outro. Uma troca justa entre mim e eu. E de fato percebi que com esforço era possível. Mas alguém atirou uma pedra para cima e acertou a minha janela. E ainda que eu quisesse me desfazer daquela pedra, isso já não seria possível. Ela se tornou maior do que o estrago feito na minha janela.
Esse de quem vos falo tem agora merecida fama, apesar de sequer ter conhecido o outro lado de onde sempre esteve. Bravo anônimo que dedicou todo o tempo que lhe foi conferido a zelar daquela casa vazia.
Alimentando guardiões e tecendo o manto da penumbra para profaná-los em silêncio. Acumulando nas extremidades poeira e massa enegrecida, observando cada movimento úmido das porções bem definidas.
Como um pilar abalado, uma farsa construída. Âncoras e escoras sustentando memórias parcialmente vitrificadas. Que não cominou prazos, nem teve pressa. E buscou respostas que, se não muito interessam, em nada alteram o conteúdo de uma página lida.
Houve marca de felicidade em cada azulejo que por hora o pertenceu. E como prova de fidelidade, aprisionou nas paredes seus fantasmas e melancolias.
Contar-lhe-ei uma mentira. Dar-te-ei ilusão. Faço uso de linguagem esquecida por puro capricho, além de convicção. Se a alma é um labirinto, o corpo é redução. Sorte daqueles que possuem uma bússola no lugar do coração.
Sou assimétrico, incompleto. Cultuo o exagero e vivo em guerra pacífica com a emoção. Metáforas, hipérboles... Figuras espremidas no imenso vazio do que aqui não será mencionado por falta de palavra, conceito ou definição.
Boa lembrança, sinônimo de saudade. Sonho: artigo de prateleira. Quem sabe o que é a felicidade quando um sorriso não devora o rosto, rasgando os lábios em expressão verdadeira?
Esqueça toda a vaidade e eu te contemplo. Seja inteiramente superficial e eu te sublimo. Só não cometa o erro de achar que a verdade é sempre uma virtude. Palavras só têm valor acompanhadas de atitude. Não se surpreenda se eu disser que sempre estarei mentindo. Sou imperfeito, ou um tanto mais que isso.